Cores de um mundo mais ingênuo

Uma tragédia mudou a vida do ponta-grossense Marcelo Schimaneski e fez dele um dos maiores nomes da arte naïf do Brasil. Em 15 anos de trajetória, o artista plástico já expôs em galerias conceituadas e vendeu obras para clientes dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha e China

Por Camila Delgado | Foto: Wandré Oliveira

No final dos anos 1980, Marcelo Schimaneski atuava como assistente técnico e não imaginava o que a vida lhe reservava. Trabalhando para uma empresa que consertava máquinas de serrarias, ele fazia viagens constantes pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina. Durante uma dessas viagens, ocorrida em 12 de dezembro de 1989, sua vida mudou radicalmente.

Após sofrer um grave acidente de carro, Schimaneski foi internado no Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde recebeu a notícia de que havia fraturado três vértebras na coluna cervical e ficaria paralisado do pescoço para baixo. Mesmo com uma difícil realidade pela frente, ele se manteve calmo. Com o passar do tempo e de inumeráveis sessões de fisioterapia, ele conseguiu recuperar parte dos movimentos dos braços.

A arte entrou em sua vida como uma forma de terapia. “Com o tempo, fui recuperando os movimentos dos braços, mas os dedos continuavam paralisados. Foi quando resolvi tentar desenhar, como exercício, fazendo grafite, rostos que achava em revistas e jornais”, relata.

“Eu gostaria de ver uma maior valorização da arte local, ver uma boa galeria local comercializando as nossas artes, para que não precisemos enviá-las para fora da cidade” (Marcelo Schimaneski) (Foto: Wandré Oliveira)

Por conta própria
No ano 2000, o mundo entrou em um novo milênio e Schimaneski entrou em uma nova etapa na arte. Nessa época, um amigo artista plástico o incentivou a começar a pintar em telas. “Ele me passou uma relação de tintas, pincéis e telas. Eu comprei tudo que ele me pediu, mas esperava que ele fosse me ensinar. Porém, passaram-se dois meses e nada de ele aparecer. Então comecei a pintar por conta própria”, explica.

No início, as pinturas eram feitas com tintas acrílicas, mas o material não se mostrou o mais adequado para o pintor iniciante. “Foi um desastre. A tinta secava muito rápido, e nisso perdi muita tinta, pinceis, camisas e tempo”, lembra ele, mencionando que chegou a pintar cerca de 20 telas com temas como paisagens, flores e cachoeiras. Embora as pessoas apreciassem seu trabalho e até comprassem algumas de suas obras, ele deixou a pintura de lado por mais um tempo.

Arte espontânea
Em 2004, uma nova visita de seu amigo e incentivador fez com que Schimaneski retornasse às tintas. “Ele me passou uma relação de materiais novamente, mas dessa vez com tinta a óleo”, conta. Os novos trabalhos tinham como tema a casa onde sua mãe vivera na infância, na cidade de Ventania (PR), bem como cavalos e galinhas.

“Quando o meu amigo apareceu para ver a minha produção, ele ficou surpreso. Falou que eu era um pintor ‘naïf’, um artista primitivo. Eu nem sabia o que era isso. Continuei a pintar, pois me apaixonei pela tinta a óleo”, descreve. Mais tarde, Schimaneski descobriu que a arte naïf é a arte espontânea, autêntica, feita por autodidatas. “É uma forma de expressão que não se enquadra nos moldes acadêmicos e tem uma visão ingênua do mundo. Tem como característica as cores brilhantes e alegres, além da simplificação dos elementos”, explica.

“Não desanimem com a concorrência nem com a falta de valorização. Façam sua arte com muito amor, prezando sempre pela qualidade, que o reconhecimento virá” (Marcelo Schimaneski) (Foto: Wandré Oliveira)

Exposições e prêmios
Com o passar do tempo, as telas de Schimaneski ficaram mais elaboradas, não demorando para que aparecessem convites para exposições e salões de arte, assim como os prêmios. Em 2006, suas obras foram selecionadas para a IV Mostra de Artes dos Campos Gerais, onde ganhou o 1º lugar. Também foi premiado na Mostra de Arte Natalina (2007) e no Salão de Arte Cidade de Ponta Grossa (2008). E, em 2016, ele expôs na Galeria Jacques Ardies, o maior espaço de arte naïf de São Paulo (SP). Ao todo, foram mais de 68 exposições e mostras em 15 anos de carreira.

Apesar do amplo reconhecimento, Schimaneski ainda alimenta um outro sonho como artista. “Eu gostaria de ver uma maior valorização da arte local, ver uma boa galeria local comercializando as nossas artes para que não precisemos enviá-las para fora da cidade”, indica o artista plástico, que já enviou obras para os Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, China, entre outros locais.

Um nome para a história
Embora sua arte seja “ingênua”, Schimaneski é pragmático e profissional quando se trata de planejar a própria carreira. Entre seus planos, está o de ilustrar obras de “editoras renomadas”. “Também gostaria de ter o meu nome inscrito na história de nossa cidade”, afirma. Aos artistas locais, ele deixa uma mensagem. “Não desanimem com a concorrência nem com a falta de valorização. Façam sua arte com muito amor, prezando sempre pela qualidade, que o reconhecimento virá”, conclui.

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